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A SOCIEDADE DO MEME E A SOBERANIA TECNOLÓGICA

fabioangeloni
há 5 horas
6 min de leitura

A chegada da inteligência artificial ao cotidiano brasileiro expôs uma contradição que ultrapassa a própria tecnologia.


De um lado, assistimos à rápida popularização de ferramentas extremamente sofisticadas, capazes de produzir imagens, textos, vídeos, códigos e simulações em poucos segundos. De outro, grande parte da apropriação social dessas tecnologias ocorre de maneira essencialmente lúdica, superficial e orientada por ondas de comportamento.


A fotografia vintage, os filtros, os avatares, os memes, as imagens produzidas por IA e os inúmeros modismos digitais revelam uma característica importante da sociedade contemporânea: tecnologias de enorme complexidade são frequentemente incorporadas como instrumentos de entretenimento antes de serem compreendidas como instrumentos de transformação econômica, educacional, científica e estratégica.


O problema, portanto, não é o meme.

O meme é apenas o sintoma.


A questão é o que uma sociedade faz quando recebe tecnologias capazes de modificar profundamente sua economia, sua educação, sua cultura, sua segurança e sua capacidade produtiva.


A crítica superficial à inteligência artificial


O debate público sobre inteligência artificial frequentemente se concentra em duas críticas.


A primeira afirma que a IA destruirá empregos.


A segunda questiona o custo ambiental de sua infraestrutura, particularmente o consumo de energia e água associado aos grandes centros de processamento.


Ambas são questões legítimas.


Mas permanecem incompletas quando analisadas isoladamente.

Existe uma ironia evidente em parte dessas críticas: pessoas que utilizam intensivamente tecnologias digitais podem simultaneamente condenar a inteligência artificial por ameaçar seus empregos ou consumir recursos naturais, sem questionar a estrutura econômica e tecnológica que está por trás de praticamente toda essa transformação.


A questão mais importante não é simplesmente quanto recurso um prompt consome.

É: quem controla a infraestrutura que permite produzir milhões de prompts?

Quem possui os modelos?

Quem possui os chips?

Quem controla os data centers?

Quem controla os sistemas operacionais?

Quem controla as plataformas?

Quem possui os dados?

Quem define os padrões tecnológicos?

E, principalmente:

quem captura o valor econômico produzido por essa infraestrutura?

Essa mudança de pergunta é fundamental.


Da utilização tecnológica à dependência tecnológica


O Brasil possui uma enorme capacidade de utilização de tecnologia.

Mas utilizar tecnologia não significa possuir capacidade tecnológica.

Essa distinção é estratégica.


Uma sociedade pode estar completamente digitalizada e, simultaneamente, ser profundamente dependente.


Pode possuir milhões de usuários conectados, mas não dominar os sistemas que sustentam suas próprias atividades críticas.

Pode consumir inteligência artificial em escala e não possuir modelos próprios relevantes.


Pode possuir empresas digitais e continuar dependendo de infraestrutura, sistemas operacionais, chips, plataformas, serviços de nuvem e softwares estrangeiros.


O problema deixa de ser tecnológico e passa a ser geopolítico.

Uma nação que depende de sistemas externos para setores críticos transfere parte de sua soberania para os proprietários dessas tecnologias.


A dependência de plataformas estrangeiras não significa necessariamente vulnerabilidade imediata ou controle direto sobre o país. Entretanto, quanto maior a dependência de componentes externos em setores estratégicos, maior a exposição a interrupções, mudanças de preços, sanções, decisões empresariais, alterações contratuais, mudanças regulatórias e riscos de segurança.

É uma questão de arquitetura de dependência.


A infantilização tecnológica


É nesse ponto que a popularização da IA revela algo ainda mais profundo.


Uma parcela significativa da sociedade está sendo treinada para consumir resultados tecnológicos sem compreender os sistemas que os produzem.


A tecnologia torna-se uma espécie de caixa-preta.

Clica-se.

Pede-se.

Recebe-se.

Compartilha-se.

Repete-se.


A sofisticação da ferramenta aumenta enquanto a compreensão de sua estrutura permanece limitada.


Isso produz uma relação semelhante àquela existente entre consumidor e produto industrial: interessa o resultado, não a infraestrutura.


O problema aparece quando essa mentalidade ultrapassa o entretenimento e passa a dominar a relação de uma sociedade com setores estratégicos.


Uma população pode ser extremamente hábil em utilizar aplicativos e, simultaneamente, possuir baixa compreensão sobre:

  • infraestrutura digital;

  • soberania de dados;

  • segurança cibernética;

  • arquitetura de sistemas;

  • dependência de fornecedores;

  • propriedade intelectual;

  • semicondutores;

  • computação em nuvem;

  • inteligência artificial;

  • infraestrutura energética.


Essa é uma forma contemporânea de analfabetismo tecnológico: saber operar a interface sem compreender a estrutura da qual se depende.


O risco dos parques tecnológicos sem estratégia


A mesma lógica precisa ser aplicada aos grandes investimentos em infraestrutura digital.


Data centers são indispensáveis para a economia digital e podem representar investimentos relevantes, geração de empregos especializados e desenvolvimento tecnológico.


O problema não é sua existência.


É quando a implantação de infraestrutura ocorre sem uma estratégia nacional de valor agregado.


Um país pode oferecer território, energia, água e incentivos

fiscais para abrigar enormes estruturas computacionais e terminar ocupando uma posição predominantemente passiva na cadeia de valor.


Nesse cenário, recursos naturais e infraestrutura pública são mobilizados para sustentar atividades cuja propriedade intelectual, plataformas, equipamentos e resultados econômicos permanecem predominantemente externos.


A pergunta correta, portanto, não deveria ser apenas:


"Quantos data centers conseguiremos atrair?"


Mas:


"O que o Brasil ganhará em capacidade tecnológica, propriedade intelectual, formação de capital humano, pesquisa, empresas nacionais e soberania digital a partir desses investimentos?"


A diferença entre infraestrutura e desenvolvimento está justamente aí.


Infraestrutura pode existir sem produzir autonomia.

Desenvolvimento exige capacidade acumulativa.


O custo invisível da distração


Existe ainda uma dimensão cultural dessa transformação.

Enquanto a inteligência artificial modifica rapidamente mercados, profissões e estruturas produtivas, uma parcela significativa do debate público permanece concentrada naquilo que é mais fácil de consumir e compartilhar.

Memes.

Polêmicas.

Modismos.

Influenciadores.

Guerras culturais.

A discussão tecnológica é frequentemente reduzida àquilo que aparece na tela.

Entretanto, as decisões realmente importantes acontecem atrás dela.

Quem possui a infraestrutura?

Quem financia a pesquisa?

Quem controla os dados?

Quem desenvolve os modelos?

Quem produz os chips?

Quem determina os padrões?

Quem define os limites de utilização?

Quem captura os ganhos de produtividade?

E quem assume os custos ambientais e sociais?

A sociedade corre o risco de transformar-se em um gigantesco mercado consumidor de tecnologias que não domina.

Mais do que um playground das Big Techs, existe o risco de tornar-se um território de extração de dados, atenção, energia, recursos naturais e valor econômico.


As bets como outro sintoma da mesma episteme


É possível estabelecer uma conexão ainda mais incômoda com a popularização das apostas.


A questão não é simplesmente condenar quem aposta.


O fenômeno interessa porque revela uma lógica cultural mais ampla: a transformação da expectativa de prosperidade em consumo imediato de possibilidades.


A promessa substitui o planejamento.

A emoção substitui a probabilidade.

A esperança substitui a estratégia.


O resultado é particularmente perigoso em uma sociedade com baixa educação financeira e forte desigualdade.


Quando a população é estimulada a acreditar que pode substituir construção patrimonial, qualificação profissional e produtividade por ganhos rápidos, cria-se uma economia extraordinariamente eficiente em monetizar a esperança.


A mesma sociedade pode simultaneamente consumir IA como brinquedo, apostar dinheiro que não possui e acompanhar intensamente disputas políticas enquanto dedica pouca atenção à construção de capacidade tecnológica nacional.


Esses fenômenos aparentemente não possuem relação.

Mas podem compartilhar uma mesma raiz epistemológica:

a preferência pelo resultado imediato em detrimento da compreensão do processo que produz o resultado.


A verdadeira discussão eleitoral


É precisamente por isso que essa deveria ser uma discussão central em qualquer projeto de país.


Não se trata de ser contra inteligência artificial.

Não se trata de ser contra empresas estrangeiras.

Não se trata de rejeitar investimentos internacionais.


E tampouco de impedir que as pessoas se divirtam com memes, imagens vintage ou qualquer outra manifestação da cultura digital.


A questão é muito maior.


O Brasil precisa decidir se deseja permanecer principalmente como consumidor de tecnologia ou construir capacidade para também ser produtor, proprietário e controlador de tecnologias estratégicas.


Isso exige políticas de longo prazo para:

  • software nacional;

  • inteligência artificial;

  • semicondutores;

  • cibersegurança;

  • computação de alto desempenho;

  • ciência e pesquisa;

  • formação de profissionais;

  • propriedade intelectual;

  • infraestrutura digital;

  • proteção de dados;

  • tecnologias críticas para defesa e segurança nacional.


Não significa substituir tudo o que é estrangeiro.

Significa possuir alternativas suficientes para que a dependência não se transforme em vulnerabilidade.


O problema não é a tecnologia. É a incapacidade de formular o futuro.


Talvez essa seja uma das maiores manifestações da crise epistemológica discutida nesta tese.


A sociedade está diante de transformações que exigiriam planejamento de décadas, mas continua reagindo a acontecimentos de horas.


Discute o meme enquanto deveria discutir infraestrutura.

Discute o influenciador enquanto deveria discutir educação.

Discute a ferramenta enquanto deveria discutir propriedade.

Discute se a IA vai substituir trabalhadores enquanto deveria discutir como utilizar a IA para aumentar a produtividade desses trabalhadores.

Discute quem ganhou a última eleição enquanto deveria discutir que país pretende construir na próxima geração.


O problema não é que os brasileiros utilizem tecnologia demais.

É que podemos estar utilizando tecnologias sofisticadíssimas sem desenvolver, na mesma proporção, a capacidade intelectual, institucional e produtiva necessária para compreendê-las e dominá-las.


Essa é a verdadeira questão da soberania tecnológica.


Uma sociedade madura não rejeita a tecnologia.

Também não a idolatra.


Ela a compreende, estabelece seus próprios objetivos e utiliza a tecnologia como instrumento de soberania, produtividade e desenvolvimento.


Caso contrário, corre o risco de transformar-se em uma sociedade altamente conectada, extremamente entretida e tecnologicamente dependente — justamente no momento em que o domínio da tecnologia se torna um dos principais determinantes do poder econômico e geopolítico.


E talvez esse seja o ponto central:

não estamos diante de uma simples invasão da inteligência artificial. Estamos diante da disputa pelo controle da capacidade humana de produzir, interpretar e organizar a realidade.


Quem controlar essa capacidade terá cada vez mais poder.


Quem apenas consumir seus resultados terá cada vez menos autonomia para decidir o próprio futuro.



 
 
 

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